terça-feira, 16 de setembro de 2008

Dia 6 – 5 de Setembro de 2008 – Linhares da Beira - Piódão

77 km’s com 3.476 metros de desnível acumulado (sim 3.476)

A etapa rainha da Grande Rota das Aldeias Históricas

No dia anterior esta etapa estava já presente no subconsciente.
A razão era muito simples, nunca tinha feito um acumulado tão elevado numa volta de btt, nem tinha subido a Serra da Estrela de bike.

A viagem de Celorico de Beira para Linhares serviu para quebrar o nervosismo e depois dos últimos preparativos, iniciámos a jornada, que prometia ser longa.
Felizmente não chovia, embora lá em cima na Serra, as nuvens prometessem qualquer coisa.

Os primeiros 3 km’s foram a descer, não pela calçada do dia anterior, mas em estradão e em direcção à zona da Serra da Estrela.


Vista sobre Linhares da Beira na ascensão da Serra da Estrela

A longa ascensão começou de forma relativamente suave, em estradão, até às antigas minas de volfrâmio dos Azibrais, onde já levávamos cerca de 4 km’s de subida.

Vista sobre a zona de Linhares da Beira

A seguir à zona das minas, tivemos algumas rampas mais inclinadas e com um piso mais complicado, com alguma pedra e areia solta.

Pedro Pedrosa e Sérgio na ascensão à Serra da Estrela

Uma pequena pausa para foto, com o jersey do BTZ a brilhar

A paisagem que se podia desfrutar à medida que se ia subindo era muito bonita, embora para o lado da Serra da Estrela as nuvens limitassem bastante o horizonte.
Depois de cerca de 13 km’s de subida, entrámos num pequeno planalto sobre a aldeia do Folgosinho, onde pudemos recuperar o fôlego.

Vista sobre a aldeia de Folgosinho

Foi uma zona muito porreira, pois não íamos a subir, e ainda pedalámos em zonas bastante arborizadas (com pinheiros e carvalhos).


No entanto, ainda faltava alcançar a linha de cumeada da Santinha, pelo que ainda tínhamos de subir mais cerca de 300 metros de desnível, em cerca de 3 km’s.

A Santinha ficava lá em cima, para ter a noção do que faltava subir

Esta última secção da subida era brutal, pois iniciávamos a subida em estradão rodeado de árvores, com uma inclinação apreciável e com um piso muito técnico, com regos provocados pela água e alguma pedra e terra solta.

A subida final para a Santinha

À medida que nos aproximávamos dos 1.600 metros de altitude, a vegetação ia sendo cada vez mais escassa e o tempo ia piorando, dado fazia um vento bastante forte.

Mais um aspecto da subida à Santinha

Numa das últimas curvas, fizemos uma pequena pausa para agrupar o pelotão de 4 elementos, pois a partir dali não havia qualquer árvore ou vegetação que nos protegesse.
Esse troço final foi bastante difícil de vencer, principalmente pelo vento que se fazia sentir. Por isso mesmo a satisfação foi maior, quando alcançámos a zona da Santinha (a fazer lembrar a zona do Posto de Vigia do Bando de Santos).

O Ricardo chegando ao alto da Santinha

A vista no alto da Santinha, limitada pelas núvens

Depois de quase 17km’s a subir entrámos numa parte espectacular da etapa, pois rolámos numa cumeada de aspecto inóspito, com um vento forte e onde efectuámos algumas descidas e subidas muito porreiras (estas últimas por serem mais curtas).

O início da longa cumeada da Santinha

Na zona da cumeada da Santinha

Mais uma descida na cumeada da Santinha

O almoço já não estava longe, na barragem do Vale do Rossim, que fica perto da estrada de Manteigas para Seia e Gouveia.

A Barragem do Rossim

Perto do final do almoço, que desta vez foi reforçadíssimo e cortesia da A2Z Adventures, começou a chover, aumentando progressivamente de intensidade.
O percurso nesta fase decorreu em zonas mais ou menos planas e com muita brita solta, o que por vezes dificultava a vida, pois a aderência não era a melhor.

A caminho da 2ª barragem do dia

Vista para o Vale do Sabugueiro

A 2ª barragem, já sob chuva forte e vento

À passagem por mais uma barragem, começou a chover de forma bastante intensa, o que associado ao vento e nevoeiro tornavam as condições atmosféricas muito difíceis para pedalar.
Depois da barragem efectuámos um pequeno pedestre, dado que a vegetação rasteira não permitia pedalar e entrámos novamente num estradão ao longo de uma levada de água que nos levaria até à estrada de Seia para a Torre.

Vista sobre o vale do Sabugueiro

Nessa zona era possível vislumbrar a aldeia do Sabugueiro, que ficava numa encosta da Serra do outro lado de um vale brutal. Pena foi que o tempo não permitisse desfrutar da paisagem.

A aldeia de Sabugueiro ao fundo


Com a chegada à estrada Seia/Torre iniciámos a subida para a Lagoa Comprida em alcatrão. A chuva era agora torrencial, o nevoeiro era mais fechado e o vento continuava fortíssimo. Foi com esse cocktail atmosférico que enfrentámos a subida, sendo que após uma pequena paragem para tirar uma foto, fiquei sozinho, pois o Sérgio e o Pedro Pedrosa continuaram e o Ricardo vinha mais atrás.

Na subida para a Lagoa Comprida, parece os Lagos de Covadonga

Foi surreal alcançar a Lagoa Comprida nessas condições.
Depois de uma pequena pausa, junto da carrinha da A2Z Adventures, eu e o Sérgio iniciámos a descida para Vide, em alcatrão, enquanto que o Pedro Pedrosa esperou pelo Ricardo.

A última foto do dia, já sob a intempérie

Apesar de ser em grande parte em alcatrão, foi das descidas mais complicadas que fiz, pois o vento e a chuva quase nos obrigavam a descer de olhos fechados, em troços com cerca de 11% a 12% de inclinação.
No final da parte em alcatrão, já tremia de frio, e se a descida continuasse durante muito mais tempo, acho que entrava em hipotermia.
Deve ter sido uma das poucas vezes em que gostei de deixar de descer para poder recomeçar a pedalar.

Voltámos a entrar em trilho, em zona de pinhal, quase sempre a descer, mas já com algumas zonas mais planas onde era necessário dar ao pedal.
Nesta fase de descida para Vide, efectuámos duas descidas espectaculares. Espectaculares, porque entretanto tinha deixado de chover e o nevoeiro tinha começado a levantar, deixando ver um pouco mais da paisagem, pois a zona de transição da Serra da Estrela para a Serra do Açor é brutal, com uma envolvente de pinhal (a fazer lembrar o antigamente de Mação).
O piso era com muita pedra, e o xisto apesar de molhado não estava muito escorregadio, o que permitia descer com velocidade, permitindo desfrutar ao máximo.
Depois dessas duas descidas chegámos a Vide, onde efectuámos uma paragem para abastecimento.

O Pedro Pedrosa disse então, que até ao final da etapa, cerca de 15 km’s, não teríamos a hipótese de ter acesso à carrinha, e que faltava subir a “parede”, o que em termos de acumulado representava cerca de 700 metros de desnível acumulado.

Um Homem dos Bandos não se nega a este tipo de desafios, pelo que apenas questionei onde é que estava essa “parede”, para a gente a subir.
O grupo reduzido agora a três unidades, seguiu caminho, iniciando a subida final de forma bastante suave, com o Sérgio à frente.
Quando já me perguntava onde estaria a temível “parede”, começo a vislumbrar, no meio da réstia do nevoeiro um corta-fogo, com uma inclinação brutal.
Quando eu e o Pedro Pedrosa chegámos ao início do corta-fogo, andava o Sérgio às voltinhas, e a dizer que andava a ver se o GPS indicava que o caminho correcto seria outro que não o do corta-fogo.
Ao fim de meia dúzia de metros desistimos, pois a inclinação era grande e a aderência não era a melhor, com alguma pedra solta e molhada.
O Pedro Pedrosa ainda conseguiu subir grande parte da subida na bike, cantando, para aumentar o moral das tropas, sendo que eu e o Sérgio lá seguimos em pedestre, mas sempre sem desistir.
Quanto à subida em si, o único comentário que faço é de que equivale a três subidas do presunto do Bando de Codes em termos de distância.
A inclinação é relativamente semelhante, e o piso tem maior aderência, mas a distância é o factor crítico. Ao que consta, no ano passado o campeão nacional de ORI-BTT conseguiu subir quase toda a subida montado, que é um feito único garanto-vos.

Depois da parte mais inclinada, já conseguimos seguir nas bikes, sendo que os últimos km’s foram já em descida ligeira, para a estalagem do INATEL do Piódão, onde pudemos vislumbrar algumas aldeias perdidas nos vales daquela região.

O Piódão é uma aldeia histórica diferente de todas as outras, pois não se situa no topo de um monte ou serra, fica numa zona onde predomina o xisto, em vez do granito.
No entanto, é uma aldeia espectacular, perdida num vale da Serra do Açor.

A visão do Piódão representou o sentido de missão cumprida, naquela que foi a etapa de btt mais difícil e complicada que fiz na vida.
Tive apenas pena de as condições atmosféricas não terem permitido desfrutar inteiramente das paisagens desta etapa, embora a tenham tornado mais épica.

Assim, gostava de lançar o desafio a todos os membros do BTZ e amigos para que para o ano, seja feita uma repetição da etapa, caso as condições atmosféricas sejam propícias a isso.

Penso que a partir desta data, qualquer outra volta de btt que faça, terá sempre uma dificuldade relativa, quando comparada com esta.
E também terei sempre uma perspectiva diferente sobre a rapaziada que anda por aí a afirmar que: “ah e tal, fazemos voltas muito duras e rijas…”.


Momento do dia:

Na descida da Lagoa Comprida para Vide, no meio de um vendaval, o Pedro Pedrosa resolve seguir por um trilho, abandonando a descida em alcatrão.
No início desse estradão estava um carro parado, com vidros embaciados, e uma grande confusão de pernas. O amor é lindo...

sábado, 13 de setembro de 2008

Dia 5 – 4 de Setembro de 2008 – Marialva – Linhares da Beira

65 km’s com 1.459 metros de desnível acumulado

O dia amanheceu a prometer chuva, pelo que os impermeáveis foram colocados de prevenção no Camelbak.
Desta vez o efectivo teve mais uma baixa, pois o dia anterior tinha encostado às cordas o Raphael, que não se sentia muito bem. Provavelmente algo que tinha comido e que não lhe tinha feito muito bem.

Após a passagem por Marialva começou a chover com pouca intensidade, mas uma chuva miudinha e que seria uma constante nos km’s que se seguiriam.



Os primeiros 20 km’s da etapa eram quase sempre a subir, mas de forma pouco acentuada, com um ganho de 400 metros de acumulado.

O ritmo imposto inicialmente não foi muito alto, pelo que rodámos quase sempre juntos.
A paisagem era marcada pelos blocos de granito, alguns deles de dimensões consideráveis, e que davam ao espaço um aspecto ainda mais austero e inóspito.


De tempos a tempos circulávamos em pinhais e no meio de giestas, e efectuámos algumas subidas e descidas mais interessantes e exigentes.


À medida que fomos avançando na etapa também a chuva foi aumentando de intensidade, tornando a nossa tarefa mais difícil.

Depois da aldeia de Venda do Cepo, mais ou menos com 30 km’s, iniciámos uma longa descida, de cerca de 4 km’s, simplesmente espectacular, ao longo de um vale.

Início da grande descida do dia

No final da longa descida chegámos à Aldeia Nova, onde nos pudemos secar um pouco e almoçar, no Centro Recreativo e Cultural, que gentilmente nos ofereceu a refeição. De destacar um queijo da região que era excelente.

Piscina do Centro Cultural e Recreativo da Aldeia Nova. Se não estivesse a chover...

Depois do almoço o tempo mudou, pois apesar de algumas nuvens, passou a estar quase sempre sol.

O percurso era quase sempre a descer até ao Rio Mondego, na zona da Muxagata.
Até à passagem do rio ainda passámos por algumas zonas porreiras, como alguns estradões ladeados por blocos de granito e dois singletracks não muito técnicos

A passagem do Rio Mondego, na Muxagata

Rio Mondego

Para compensar, o que restava da etapa seria quase sempre a subir, até Linhares da Beira e ainda faltavam cerca de 15 km’s.

Linhares da Beira com a Serra da Estrela em fundo

O Ricardo em mais uma pequena subida

O Sérgio e o Pedro Pedrosa, não havia quem os apanhasse nas subidas


Tivemos duas ou três subidas um pouco complicadas, no meio de giestas, até ao último abastecimento que era em Carapichana, já com a Serra da Estrela como pano de fundo.
Depois desta aldeia já só faltava a grande dificuldade do dia, a calçada romana de Linhares.

Tentando apanhar a roda do Sérgio na Calçada Romana de Linhares

A calçada romana de Linhares é tecnicamente mais fácil que a de Monsanto, pois as pedras não são tão salientes, permitindo andar mais depressa, mas é mais longa, com cerca de 1,5 a 2 km’s.
Ao ritmo a que foi feita (ao despique com o Sérgio) é um empeno, mas a entrada em Linhares é espectacular, pois percorremos diversas ruas da aldeia até chegar ao largo do Castelo (um magnífico cenário), onde nos esperavam a Filipa, o Nuno e a Garbike, que uma vez mais prestou a assistência técnica no final da etapa.

A zona de assistência da Garbike no final da etapa

Aspecto do largo do Castelo de Linhares, com a Serra da Estrela em fundo

O Ricardo fazendo uma descida radical


Castelo de Linhares da Beira

Momento do dia:

A convite do Clube Recreativo dos Amigos de Linhares lanchámos nas suas instalações.
Uma vez mais a componente gastronómica (queijo e chouriço ao mais alto nível) e anti-oxidante (um bom tinto da região) esteve presente.
De seguida tivemos direito a uma visita guiada pela aldeia (pela Margarida), onde pudemos verificar a riqueza do seu património.

Apanhado com o pão e o chouriço


A nossa guia e o Tiago

O dia terminou em Celorico da Beira, onde ficámos alojados.

No dia seguinte seria o grande dia da Grande Rota das Aldeias Históricas...
To be continued…